MORO NUM PARASITA

August 30, 2019

 

Num dia como outro qualquer, enquanto preparava o material para uma palestra me deparei com algumas perguntas interessantes: de onde vem a água que sai da torneira da minha casa? De onde vem a eletricidade que carrega meu aparelho celular? De onde vem o alimento que eu como? Para onde vai a água suja que eu não uso? Para onde vai aquilo que eu joguei no lixo? Essas reflexões vieram do princípio da ação e reação que é uma das referências da física.

 

Acabei percebendo que a grande maioria das metrópoles brasileiras possui uma característica em comum: são parasitas do planeta. Vou tomar Belo Horizonte (MG) como exemplo. A cidade possui mais de 2,5 milhões de habitantes segundo dados do IBGE (2018). A água potável vem de municípios vizinhos, pois o rio que corta a cidade e a represa da Pampulha são poluídos. A eletricidade é gerada a quilômetros de distância.

 

As verduras, frutas, legumes, vegetais são cultivadas em outras cidades. A carne que vai para a panela vem de criadouros que também ficam fora. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre saneamento dão conta de que a cidade trata quase 90% do esgoto gerado e captado, mas os 10% não tratados vão para leitos de rios ou contaminam o solo da cidade. Os resíduos coletados pela Superintendência de Limpeza Urbana vão para um aterro sanitário de uma cidade vizinha.

 

Se a cidade não produz o que precisa e exporta o que não “serve” mais, tem comportamento semelhante a um parasita. Segundo o dicionário, os parasitas são “organismos que vivem em associação com outros dos quais retiram meios para a sua sobrevivência, normalmente prejudicando o organismo hospedeiro, um processo conhecido como parasitismo”. Não há outra conclusão: eu moro num parasita.

 

Maior que a decepção de fazer esta analogia é pensar que 99% da população não sabe e não se preocupa com isso. Dá pra concluir isso ao observar o comportamento agressivo de uns quando falta água na torneira. Dá pra entender tudo quando outros lavam o chão com mangueira. Não há como duvidar desta conclusão quando percebemos desperdício, sujeira, consumo.

 

A “praticidade” de uma vida cheia de “comodidades” não nos permite refletir sobre os bastidores. A menor ameaça de ter este status quebrado gera pânico e animosidade. Após as tragédias nos municípios de Mariana e Brumadinho, ambos em MG, muitas pessoas ficaram imediatamente preocupadas com o abastecimento de água em suas casas. Não houve sequer um sopro de reflexão de que tragédia ambiental maior ocorreu e que centenas de vida se foram.

 

O parasitismo é, por natureza, um instinto vital que não está programado para considerar o outro. O parasita não pensa e não teme as consequências de seu ato, pois dele depende a sua sobrevivência. O ser parasita não tem outra escolha senão cumprir o destino que a mãe natureza lhe deu. Mas as cidades não nasceram parasitas. Seus cuidadores possuem não somente potencial, mas meios para corrigir a rota e torna-las menos danosas ao planeta. Basta querer. Só não espere demais, pois o hospedeiro pode morrer.

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