• Fábio Pessoa

Tragédias ambientais partidárias



As tragédias ambientais acontecem no Brasil desde o seu “descobrimento” em 1500. Invasão de terras, tentativa de escravização e genocídio indígena, escravização de negros, exploração e contrabando de recursos locais para o Velho Mundo e de lá pra cá. Está tudo documentado nos livros de histórias. Somente a narrativa foi suavizada para não traumatizar o processo de educação formal pelo qual passamos.


Exagero? Não. Estou apenas pontuando o começo de tudo. As raízes históricas que não nos deixaram ter mais amor pelo que é “nosso”. Quer mais uma prova? Na cronologia internacional sobre a defesa do meio ambiente vamos encontrar a Conferência de Estocolmo, em 1972, como o primeiro alarde para o tema. Neste evento foi lido o famoso Relatório Brundtland, que apontou os “Limites do Crescimento” para o mundo.


Este documento é fruto de um estudo interdisciplinar que nasceu em 1968 e foi encomendado pelo Clube de Roma (comissão de personalidades de nível mundial que se uniu para discutir assuntos importantes, dentre eles o meio ambiente). O resultado das pesquisas apontou a necessidade de se planejar o desenvolvimento dos países colocando um freio à exploração sem limites. Esboço do que muitos entendem por Desenvolvimento Sustentável.


O governo brasileiro participou do evento e se posicionou contra as medidas sugeridas. O motivo? Naquele tempo ainda éramos um país subdesenvolvido então não fazia sentido vetar indústrias poluidoras. Isso seria um atraso para os anseios progressistas da época. De lá para cá aprendemos um pouco e criamos um dos maiores arcabouços legais do mundo. Sim, o Brasil é referência quando o assunto é legislação ambiental.


Somos exímios teóricos, mas péssimos aplicadores do que pregamos. Fingimos que cobramos, mas suavizamos na hora de liberar. Penalizamos com multas os infratores, mas estes enrolam e não pagam as cifras devidas. Enrolam o quanto podem até que a mudança nos cargos eletivos abra brechas para os perdões na “calada” da noite. Manobras que são acobertadas pela promessa de geração de empregos e pelo incremento dos caixas públicos por meio da arrecadação de impostos. Muitos municípios e populações inteiras vivem dos royalties do minério.




Sem falar nas mesadas que direta ou indiretamente patrocinam campanhas e projetos que certamente vão beneficiar mais a uns do que outros. Tragédias como as de Mariana e Brumadinho são semeadas há tempos e resultam de uma infinidade de partidos. Numa ponta o poder público interessado nas cifras, embolado na burocracia e perdido nas regras. Noutra ponta o povo ávido pelo conforto do consumo de bens cuja matéria prima vem do minério e pelo salário e benefícios do emprego oferecido pela mineradora.


Na última ponta o mercado, o empresário e o empregado que direta ou indiretamente se beneficia da mineração. Os dois primeiros querem todo o dinheiro a todo custo e o terceiro quer apenas o soldo sem avaliar os custos. Santa ignorância. Abrir a terra e cavar sem dó, gerando e acumulando veneno ao lado em troca de mais lucro.


Na roleta russa da lama tóxica vamos chorando vítimas, escolhendo heróis e vilões sem botar a mão na consciência e fazer a meia culpa. De que lado você está? Será que você não contribuiu pelo menos um pouco para estra tragédia? Ainda que você diga que não, que desconhece os fatos e que, por isso, está imune, você está sendo partidário. Talvez você não saiba, mas a tristeza de nossas lágrimas pode ter mais de um motivo que não conhecemos de fato. Tragédias não escolhem cor de pele, classe social ou religião, mas certamente estão carregadas de fatos partidários.

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