• Fábio Pessoa

O tamanho do Impacto Ambiental do Carnaval de BH

É costume do senso comum apontar dados econômicos para justificar o sucesso de um determinado projeto. A geração de emprego também costuma ser uma referência importante. Por estes quesitos o carnaval de BH está mais do que credenciado: R$ 641 milhões em receita e 9,5 mil inscritos para trabalhar como ambulantes durante o evento. Não há dúvidas de que a economia se aqueceu e agradeceu.


Estes números deveriam justificar os R$ 9 milhões investidos para a realização da festa popular, mas este não é o custo real do carnaval. Sim, existem passivos importantes que não são considerados como itens da planilha orçamentária do evento. O principal objetivo deste texto é chamar a atenção para o tamanho e também para o custo de alguns impactos associados à festa.



Preste atenção nesta primeira reflexão: Durante o período carnavalesco Belo Horizonte recebeu 867 mil turistas que permaneceram na cidade durante os cinco dias do evento. Certamente cada visitante deve ter tomado pelo menos um banho por dia durante a sua estadia. Estimativas apontam que um banho de 10 minutos consome diretamente 50 litros de água e carece indiretamente de outros 2160 litros para a geração da energia consumida no mesmo banho.


Quando multiplicamos o número de visitantes pelo tempo de permanência e pela quantidade de água requerida somente para um banho, alcançaremos a incrível quantidade de mais de 21 milhões de litros de água. Este é o volume requerido somente para o banho dos turistas em visita à cidade durante o evento. E se eles tomaram mais de um banho? Afinal, a festa ocorre no verão e as grandes aglomerações somadas à animação geram transpiração em abundância.


Como não há como estimar a quantidade de banhos tomados por cada visitante, podemos deduzir que o consumo de água seja ainda maior do que esta simples projeção. Acrescente ainda a água requerida para gerar a eletricidade dos banhos. Seguindo a mesma conta anterior (quantidade de turistas X permanência X 1 banho/dia), alcançaremos a marca de mais de 9 bilhões de litros de água. Somando as duas quantidades e multiplicando pelo custo por litro (R$ 0,0005) deste recurso, ultrapassaremos os R$ 4,5 milhões.


Os mais atentos certamente questionarão o fato de que muitos moradores locais passam o feriado fora da cidade. Isto é verdade, mas se voltarmos à possibilidade de turistas tomarem dois, três banhos por dia, teremos uma relação de quase nulidade. Então esqueçamos o “mimimi” e voltemos o foco para o tamanho do estrago.


Ainda sobre o recurso água, há uma grande demanda para a limpeza dos espaços mais utilizados pela festa. Belo Horizonte utiliza tradicionalmente de 4 a 5 grandes pontos de concentração de pessoas, fora os blocos de rua e os pequenos palcos espalhados por suas regionais. Em 2015, quando estas informações foram divulgadas oficialmente, a prefeitura da cidade tinha uma previsão de lavar mais de 1 milhão de metros quadrados de espaços públicos.


Atualmente o método ainda é aplicado com água de reuso cedida pela UFMG. Isso dá a falsa impressão de baixo custo, impacto ambiental próximo de zero e responsabilidade ambiental apurada. Na verdade é uma ação parcialmente responsável, com custo questionável e impacto ambiental considerável. O reuso de água é nobre, mas a logística de transporte do recurso, não. Cada caminhão pipa tem capacidade para apenas 10 mil litros. Portanto, são necessárias várias viagens para cobrir todas as áreas que necessitam de limpeza. Coloque no papel a queima de combustível, o desgaste do veículo, o uso de mão de obra e o custo total do carnaval terá aumentado mais um pouco.


O que dizer da geração de lixo nas ruas? De 2017 para 2018 o público cresceu pouco mais de 26%, mas o volume total de resíduos cresceu quase 43%! Foram 2,5 quilos de lixo por pessoa durante o feriado. Para ampliar a referência, a média de geração de resíduos por dia por pessoa no estado de MG é de 0,944 quilos. Para este assunto a logística atual é a seguinte: posicione lixeiras e caçambas nos locais onde haverá folia; espere o evento acontecer; limpe o espaço juntando toda sujeira que encontrar; destine tudo para o aterro sanitário.


Para levar as 1500 toneladas de lixo acumuladas durante os dias de folia de 2018, foram necessárias 166 viagens de caminhão compactador. Cada um destes veículos tem capacidade para 9 toneladas de resíduos. O aterro sanitário da cidade fica a uma distância média de 25 km dos pontos de grande concentração. Multiplique esta distância pela quantidade de viagens e chegaremos ao total de 8.300 km percorridos somente para destinar resíduos sem triagem. Só de combustível, ao preço médio de R$ 2,80 (valores atuais), seriam gastos outros R$ 8 mil fora a emissão de gás carbônico que vai para a atmosfera!


Neste mesmo processo são necessários profissionais para a varrição (garis), para o ensacamento (ajudantes de limpeza), coleta e para o transporte (motoristas). No mínimo 40% deste prejuízo poderia ter sido evitado, pois a composição do resíduo coletado se resume a vidro, papel, alumínio e restos de comida. Assim sendo, quanto mais resíduos não triados, mais viagens são feitas, mais profissionais são demandados para a limpeza e menos vida útil terá o aterro da cidade.


Para se ter uma outra referência de custo com resíduos, a Prefeitura de BH cobra atualmente R$ 1,45 por dia para coletar o lixo no domicílio de cada cidadão. Se acumulássemos o resíduo do carnaval em sacos de 100 litros (mais usado nas residências), teríamos 75 mil unidades para serem coletadas. Multiplique este último número pelo valor cobrado pela coleta e teremos a quantia de quase R$ 110 mil acrescidas ao custo do evento.


E ainda tem muita coisa não computada nesta matemática que sugerimos:

  • Quantidade de energia elétrica, papel, combustível consumidos e resíduos gerados durante o planejamento do evento;

  • Quantidade de CO2 gerada pelo deslocamento dos foliões e pela operação do carnaval;

  • Quantidade de energia elétrica consumida durante a operação da festa;

  • Outros impactos oriundos da logística de operação da folia.


É possível e plausível que muitos questionem os números e projeções apontadas. É também verdade que existem pontos subjetivos e complexos nesta reflexão sobre o impacto da festa. A mensuração da geração de CO2 pelo deslocamento dos foliões é uma delas. Muitos vão defender que é um exagero de militância ecológica. Porém, o cerne da questão não é a quantificação exata dos impactos, mas a ausência de preocupação e de ação real para minimiza-los.


É extremamente preocupante que a geração de receita e a pesquisa de satisfação com os foliões sejam os únicos termômetros de qualidade. Todas as referências mundiais de gestão ambiental verticalizam os indicadores, sendo o quesito econômico apenas um dentre outros vários. Os números e os exemplos anteriores comprovam que a receita total gerada é bruta e, não, líquida. Onde está a contabilidade real da festa e por que os processos de planejamento e execução ainda são tão rudimentares? É óbvio que não estamos nos referindo à competência da equipe que planeja, produz e gerencia a festa. Estamos cobrando gestão ambiental, claro!


A logística de resíduos sólidos, por exemplo, é extremamente antiquada e ineficiente. Sujar tudo e depois limpar? Como assim? Por que excluir as cooperativas de catadores neste caso? O lixo reciclável poderia ter sido separado e recebido sua destinação específica. Com esta iniciativa, por exemplo, a festa teria realizado maior inclusão social, gerado mais receita, evitado impacto ambiental e ajudado na conservação da capacidade do aterro sanitário da cidade. Trocando em miúdos, teríamos diminuído o prejuízo gerado pelo evento. Isso não é sucesso? Reduzir custos, distribuir renda e minimizar impactos não é bom?


Qual é a justificativa para não fazer assim? Burocracia? Má vontade? Não queremos deduzir que o caminho para o esforço cooperado não é viável e que BH não tenha capacidade para isso. Várias experiências pelo mundo comprovam que o engajamento e o diálogo entre atores gera resultados mais equilibrados e perenes. É isso que estamos sugerindo, independente do esforço inicial necessário para começar. A recompensa vale o investimento.


A originalidade e a alegria da festa precisam permanecer, mas o seu maior legado deve ser uma cidade unida e preservada para carnavais eternos. Pelo tamanho e importância do evento, inovar por meio dos pilares sustentáveis é o único caminho aceitável. Se ontem a escolha não foi certa, que amanhã mudemos de direção. Daqui torcemos para que a gestão pública local entenda a necessidade e a oportunidade de mudar para melhor e servir de referência para outras festas país e mundo afora!


Viva o carnaval, mas que seja sustentável, por favor!

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