• Fábio Pessoa

O Carnaval de BH sob a ótica da Sustentabilidade

De cidade fantasma a Top 5 na lista dos destinos mais procurados para o feriado do Carnaval. São apenas 6 anos de mudança, mas Belo Horizonte já conquistou seu espaço dentre a preferência nacional. Os números impressionam: 3,8 milhões de foliões, gerando R$ 641 milhões somente nos cinco dias do feriado. A ocupação hoteleira superou as expectativas e uma pesquisa realizada pelo Google elegeu a cidade como o segundo melhor carnaval do país em 2018. Com 18% da preferência nacional, o evento da capital mineira só perdeu em popularidade para o carnaval de Salvador.




Todo este furor econômico precisa ser comemorado, uma vez que o contexto do país é de recessão. No entanto, um evento desta magnitude não traz apenas números positivos. O aumento da população flutuante traz também uma demanda por água, energia elétrica, transporte e alimentação. Da mesma forma aumenta a geração de efluentes (esgoto), gás carbônico e resíduos sólidos. De todos os pontos negativos citados, apenas os resíduos sólidos possuem referências quantitativas quanto à sua geração.


A primeira reflexão que este texto propõe: a geração de receita oriunda do fluxo de visitantes compensa o impacto ambiental deixado pelo evento? Ou seja, quanto isso custa aos cofres da cidade? Sem a mensuração total dos impactos negativos não há como fechar a conta para uma resposta lógica e direta dessa pergunta. Daí a primeira deixa para os órgãos competentes avançarem em ações mais estratégicas e equilibradas: mensurar todos os impactos e não somente a geração de renda é uma das chaves para a inovação na execução do evento.



A segunda reflexão que se deve fazer vem a seguir: o aumento no número de foliões sinaliza também um aumento nos impactos ambientais? Sim. As poucas referências existentes já sinalizam para um crescimento proporcional dos danos. Em 2018, por exemplo, o carnaval gerou 1.500 toneladas de resíduos. Ao concentrar o impacto somente nos cinco dias do feriado (período de maior fluxo de pessoas), são 300 toneladas por dia e 390 gramas de resíduo por folião.


A referência per capta sugere pouca quantidade, mas quando a evolução geral da geração de resíduos é analisada, o sinal de alerta se acende. Em 2015, quando a mensuração dos resíduos começou de fato, cada folião gerava apenas 250 gramas. Portanto, de 2015 a 2018 a quantidade de resíduos sólidos se multiplicou cinco vezes. Os investimentos para a execução do carnaval aumentam a cada ano, mas não há sinalização de investimentos em soluções ambientais para minimizar os impactos ambientais negativos. Por isso é preciso repetir: quanto custa não minimizar ou mitigar estes impactos?


O ano de 2016 foi uma exceção dentro do período de crescimento do carnaval de BH, pois foi quando o volume de investimentos caiu, por uma decisão interna da prefeitura da cidade. O mais interessante é que no ano de maior escassez de investimentos, um pequeno montante foi aplicado em algumas iniciativas ambientais. A Sua Árvore Consultoria Ambiental foi escolhida para realizar duas ações de sensibilização para o evento. A primeira delas ocorreu no período de pré-evento e com foco nos bares e restaurantes (mensagem: não venda bebidas em garrafas). A segunda intervenção se deu no período carnavalesco e o foco foi o folião (não jogue lixo no chão e cuide do bem público).



As ações do Ecobloco, grupo de intervenção especialmente criado para a sensibilização junto aos foliões, atingiram diretamente a 30 mil pessoas. As abordagens ocorreram em 19 blocos de rua, 4 regionais, avenida Afonso Pena, Avenida Brasil 41, Savassi, Praça da Estação, bloco antidrogas e Banda Mole. Foram distribuídas 10 mil sacolas de lixo para que o próprio folião pudesse carregar seus resíduos.


Com público 33% maior do que no ano de 2015, 7% a mais de blocos e mais de 61% de redução em recursos para operação do evento, a geração de resíduos cresceu apenas 2,7%. Poderia ser apenas uma coincidência, mas no ano seguinte (2017) não houve nenhuma ação de sensibilização com o público. Os números assustam: 77% de aumento no número de blocos, 50% de incremento de público, 32% de adicional nos investimentos e uma geração de resíduos de quase 110% para mais!


Os números comprovam que no único ano onde houve um PEQUENO investimento em soluções ambientais, aconteceu uma redução significativa na quantidade de lixo gerado pelo evento. Veja abaixo o quadro comparativo:

Segundo os dados acima temos a terceira reflexão: sustentabilidade não aumenta custos, mas gera benefícios. Imagine se todo o volume de resíduos gerado fosse triado e levado para a reciclagem? Teríamos então mais benefícios a somar para o carnaval: inclusão e geração de renda para cooperativas de catadores; menor volume de lixo indo para o aterro sanitário. Convém informar que o cidadão belo-horizontino paga por cada caminhão de lixo que vai e vem descarregando seu conteúdo em Macaúbas ( aterro sanitário localizado na cidade de Sabará-MG).


Atualmente a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) da cidade adota a seguinte postura: verifica o público esperado para o evento; distribui lixeiras com base nesta primeira informação; aguarda o término do acontecimento para realizar a varrição. Tudo que é coletado é então destinado ao aterro sem qualquer tipo de separação. A justificativa é que o órgão não tem pessoal e recursos para desenvolver uma ação diferente.


É neste momento que se encaixa uma parceria com as cooperativas de catadores espalhadas pela cidade. Estes é quem fariam a separação e o recolhimento dos recicláveis com o suporte logístico de uma consultoria especializada. Teriam assim uma receita extra no período do evento e ajudariam toda a cidade a manter a vida útil do aterro, diminuindo o volume de resíduos destinados para lá nos períodos de festividades. A sustentabilidade compensa e este argumento se ampara no fato de que o investimento em sensibilização ambiental realizado em 2016 não chegou a 1% do volume de recursos totais investidos no evento.


Para 2019 espera-se um crescimento de 20% para o carnaval de BH. Se isso ocorrer o público ultrapassará a marca de 4 milhões de pessoas. Assim, aumenta também a receita bruta a ser gerada pelo evento, mas multiplicam-se os impactos já citados nos dados acima. Mais uma reflexão que se pode fazer a respeito: até quando o evento vai crescer sem prejudicar o funcionamento da cidade, seus recursos e a vida do morador? Afinal, tudo tem um ponto de saturação.


O texto apresenta não só fatos, mas sugestões de mudança. Existem inúmeras possibilidades de manter o evento grande e atrativo sem deixar de lado as medidas ambientais necessárias. A Sua Árvore Consultoria ambiental, por ter já atuado no carnaval e por ser especializada em Gestão Ambiental para Eventos, já tem um plano estratégico traçado. A intenção é que o município adote, siga e evolua com uma fórmula mais equilibrada e qualificada para seu carnaval de rua. O alerta está dado e o convite para uma parceria já foi feito e continua de pé.


Breve análise dos números citados no quadro:

  • 2015 foi o ano base para o início das medições, uma vez que os anos de 2013 e 2014 não apresentam dados concretos sobre a geração de resíduos sólidos durante a folia;

  • O ano de 2016 recebeu um acréscimo de 33% de público com redução de 61,3% do investimento total no evento. Ainda assim o carnaval recebeu ações de sensibilização ambiental focadas em resíduos. O crescimento do volume de lixo recolhido pela Superintendência de Limpeza Urbana da cidade não acompanhou o crescimento do público nas ruas;

  • Em 2017, houve um acréscimo de 50% no número de foliões e um aumento de 32% no investimento para o evento. Sem investimento em sensibilização ambiental o montante de resíduos cresceu quase 110%;

  • No ano de 2018, novo crescimento de público (quase 30%) e mais aporte de patrocínio sem apelo para a sustentabilidade. Resultado: crescimento no volume de resíduos.

É bem verdade que a consistência de análises temporais deve ocorrer com períodos mínimos de 10 anos. Mas os números mostrados já apontam para um crescimento exponencial do evento e de seus impactos (positivos e negativos) e a necessidade imediata de intervenção.

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