• Fábio Pessoa

Água: recurso para a vida ou estopim de guerra?



A água recobre 70% da superfície da Terra, sendo dividida entre doce e salgada. Somente a do tipo doce tem potencial de exploração tecnológica e econômica. Do volume hídrico total do planeta, apenas 0,5% é de água doce. Quando extraídos os volumes que estão em local de difícil acesso ou aqueles que estão muito poluídos, restam apenas 0,003% para consumo humano. Significa dizer, que se a água do planeta fosse uma caixa com capacidade para 100 litros, sobraria meia colher de chá (0,003 litros) para ser dividida entre todos.


O Brasil é o país do mundo que possui maior volume de água doce (12%). É também onde se localiza a maior bacia hidrográfica do mundo (Amazônica). Mas a recente crise hídrica comprova que abundância não é sinal de disponibilidade. O país apresenta uma distribuição discrepante de água em suas diferentes regiões: no norte sobra água e falta população; no nordeste a seca mata; no centro-oeste há desperdício por causa da agricultura; no sul e sudeste o excesso de lixo e poluição faz com que grandes volumes de água sejam jogados fora.


Uma pesquisa recente da Agência Nacional de Águas (ANA), apontou que 69% das águas nacionais são consumidos pelas atividades agropecuárias, 10% pelas cidades, 7% pela indústria e o restante (14%) é desperdiçado. Cabe ressaltar que o volume perdido é de água potável, pronta para o consumo. Toda água não tratada que volta para o leito dos rios em formato de esgoto, aumenta o problema, pois dificulta o reuso deste recurso.


É preciso lembrar também, que grande parte da matriz energética brasileira vem da água. Significa dizer que quanto menos água de qualidade, menos energia é fabricada e maior a possibilidade de apagões ou racionamentos. A conta de energia também fica mais cara, uma vez que será preciso investir em termoelétricas, usinas nucleares e compra externa para suprir a demanda interna.


Não é preciso pesquisar para concluir que num dado momento haveria colapso. O consumo é desregrado, o uso é inadequado, o reuso é baixo e o descarte da água é inapropriado. O consumidor e a indústria vão alegar que o problema está na agropecuária, que consome muito. É uma defesa aparentemente fundamentada, mas hipócrita. Tome por exemplo a cidade de Belo Horizonte: não há atividade agropecuária em seu território, logo, não há economia se indústrias e população não economizar!


O governo tem sim responsabilidade e pode utilizar as pesquisas da ANA para balizar suas ações. Políticas de incentivo a mudanças nas formas de irrigação de plantações, prevendo menor consumo e maior aproveitamento do recurso, são urgentes. Planejar e implantar uma matriz energética inteligente e limpa (solar, eólica) para dar suporte ao formato atual é muito necessário. Campanhas de uso e consumo conscientes também devem ser difundidas para todos os atores e em todo território. Planejar e implantar o saneamento e tratamento de esgoto no máximo de municípios ajudaria muito.


Não há uma ação mais eficaz ou uma medida mais eficiente. Todos necessitam de água e são responsáveis pelo seu correto uso e descarte. As autoridades têm por missão e obrigação, gerenciar adequadamente as políticas e os processos que embasam e dão sustentabilidade ao uso e disponibilidade do recurso. Mas cada um precisa fazer a sua parte. Cuidar da água é essencial para viver com qualidade. Empurrando a responsabilidade e esperando somente o governo se movimentar, morreremos de sede antes da guerra pela água eclodir. Pense nisso!

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